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domingo, 27 de março de 2011

Mnemónicas

Este excerto do programa do Jô Soares fez-me lembrar os tempos de liceu e as mnemónicas "loucas" que inventávamos para Química Orgânica... o PVP e o PJ sabem bem do que falo...

Invariavelmente passavam por chorrilhos de palavrões e ordinarices cuja recordação ainda hoje quase me faz corar... o facto é que davam óptimos resultados... e 30 anos mais tarde ainda me lembro, por exemplo, como distinguir e nomear os anéis benzénicos com 2 ramificações em função das posições das mesmas...


quinta-feira, 24 de março de 2011

O sonho do meu amigo...

Esta história é para o Hagarra que gosta de histórias com sabor a cacimbo.

À noite, mal deitei os miúdos, larguei o Sandokan, peguei num livro sobre memórias coloniais. O autor escreve muito bem, sem pretensões ou artifícios, desfiando memórias dolorosas sem tornar a dor banal. Mas, lido o livro, percebi uma coisa. Cada um tem a sua África. A minha África é diferente da África dele e da dos outros. Não encontro nas memórias da minha família desprezo ou ódio. Nenhum. A minha África é uma história que cada um de nós carrega uma memória nostálgica, longínqua, perfeita, cada vez mais perfeita, com o passar do tempo, sem nunca lhe mexer. É uma história com apenas três personagens: o homem a trabalhar; a mãe a trabalhar e a cuidar da casa e de mim, e eu, o menino sem memória.
Mas lembro-me de um vizinho, um mulatinho pouco mais novo do que eu, que brincava comigo na varanda da minha casa. Era um menino triste de órfão.
À míngua de mãe, eu emprestava-lhe a minha, e uma vez, lembro-me bem, ele aninha-se no colo dela e pede-lhe “mamã, faz-me cabelo de branco”.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

É preciso ter cuidado!

Eram os anos da faculdade, melhor, das escolas superiores. Por detrás do Palácio da Justiça da Invicta, o estabelecimento de ensino artístico debitava, à saída, altas correrias dos mancebos e mancebas em direcção às paragens de autocarro. Em travessia louca do jardim da Cordoaria, saltando canteiros e sebes, vislumbrei o autocarro que se avizinhava da paragem. Duas faixas separadas constituíam o caminho do transporte e o meu autocarro dirigia-se para a segunda plataforma, ocultada pelo abrigo da primeira plataforma. Ainda no jardim, e em alta correria, deito um olhar de prevenção, não venha um machimbombo pela primeira faixa… nada à vista… entro a atravessar e… PAM… elevo-me no ar ao estilo da modalidade do salto em altura e aterro sentado no capô do táxi preto e verde, deslizo, tal e qual um escorrega, pela tampa comprida do motor do Citroen boca de sapo, e termino em pé ao som, dum coro “ai Jesus, lá se foi o rapaz!" De facto o táxi era bem mais baixo que um autocarro e invisível ao meu olhar de prevenção.

Com o motorista debruçado, imóvel, sobre o volante, a passageira idosa com um arfar de falta de ar, eu julguei que ainda ia ser acusado de um crime! Abeirei-me da janela semi aberta do condutor, e preocupado balbuciei: - O senhor está bem? O senhor está bem? Magoou-se? – silêncio… Estará morto? – pensei. Não, está a respirar… - O senhor está bem? – silêncio. Uns intermináveis dez minutos nisto e eis que o homem afasta-se do volante, mete a primeira e lá vai à vidinha dele, transportando a velhota que ainda não tinha parado de arfar. E eu lá fui, também, à minha vidinha, a pé porque tinha perdido o autocarro e a pensar: - "Pôrra, fui atropelado!”



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O meu pirralho é judeu ó quê?

Já que estou numa onda famílio-confessional, e como o pai mais babado, vou dar conta de um mail que o meu filho mais novo me enviou em Novembro e que teve a devida (e parentalmente ruinosa) resposta.
Sem nada me dizer, chega-me esta mensagem que transcrevo ipsis verbis. Aliás um dos meus grandes lamentos é que não tomo nota das inúmeras coisas com piada que dizem e sendo a minha memória o que é...
Mas aqui vai:
"Pai, quero ganhar dinheiro.Fazendo tarefas em casa.Tipo, varrer o chão,dar de comer á gata ,sei lá coisas desse tipo. Aguardo a tua resposta no meu GNAIL."
Corrigi-lhe a ortografia, fiz-lhe uma lista de tarefas com preço e desde então perdi mais de 40 aérios.
Tem os seus oito anos e rais me partam se o nome dele do meio não é Champalimão...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ah pois é!

Aqui há umas semanas os meus pais fizeram anos de casados, 50 mais exactamente. Como a ocasião pedia comemoração conforme, eu, que sou grande organizador de ebentos - o essencial é esta convicção - convidei-lhes cerca de 50 amigos para uma almoçarada.
Antes, como eles são do antigamente, calculei que também quisessem uma missinha e também organizei a liturgia.
Ora a meio a cerimónia o padre além das linhas «obrigatórias» quis introduzir umas perguntinhas mais informais, em jeito de conversa amigável. E começou pela minha mãe:
- Muito bem, cinquenta anos. E então a senhora diga lá: se voltasse atrás voltava a casar-se para poder viver assim 50 anos de felicidade?
A minha mãe que não estava à espera de perguntas directas, para além das ladainhas próprias da ocasião, embatucou durante uns segundos, pensou, e como só ela saiu-se com uma resposta tão sincera quanto inesperada:
- ... Talvez!
A conversinha informal ficou por ali e o padre passou rapidamente para os padre-nossos e ámens finais.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma tarde com Ney Matogrosso...

É verdade. Vou contar-vos esta história apenas para vos fazer inveja. Na passada sexta-feira passei a tarde com Ney Matogrosso, tomando café e falando sobre a música, o cinema, o Brasil, Portugal, a insegurança no Brasil, o potencial do Brasil os teatros onde actuou, o que queremos da vida, etc.
Foram umas horas muito bem passadas. Ney Matogrosso tem 67 anos e parece um homem de 40. «Eu trabalho o físico todos os dias», disse-me. Tal como me contou que tem uma propriedade com mais de 1700 hectares a norte do Rio de Janeiro que tem rios e animais selvagens. Blindou a propriedade para que não sirva para mais nada. Tem cachoeiras em que quatro pessoas podem ter o seu próprio arco-íris debaixo das quedas de água. Confessou que gosta muito de música, mas adora cinema. Que é muito tímido fora de palco e que o seu pai foi um militar muito severo. A primeira vez que cantou em Portugal foi em 1983 e já actuava há mais de uma década no Brasil. E muitas outras coisas mais.
É verdadeiramente uma pessoa muito inteligente e interessante. De grande sensibilidade. Aqui fica um clip para atestar:

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Gilda

Bom, isto sou eu a recordar a minha juventude. Uns tinham a boazona da Martini, outros a do je t'aime moi non plus, outros o Julio Iglesias e eu tinha esta miúda Gilda. Era o meu modelo, se eu buscava algo era aquele cabelo, aqueles dentes, aquela vulnerabilidade.
Depois cresci. Contudo: Put the blame on mame, boys!!!!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Páscoa em Lisboa...

Numa recente descida a Lisboa pude ver duas ou três coisas muito interessantes:
- um grande concerto do trio de Biel Ballester, um grande guitarrista solo de Maiorca, escolhido por Woody Allen para o filme «Vicky...»
Podem ter uma ideia aqui a seguir:



- uma visita ao zoo (a 548ª)
- uma visita ao CCB (com duas boas exposições) - grátis!
- uma visita ao Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (desapontante)
- uma vista à Tapada de Mafra (idem)
- 12 visitas aos pastéis de nata (Belém)
- 14 patinagens no parque
- uma pseudo-peça-de-pseudo teatro (insultante e de que não dou mais nota) e
- uma visita ao sempre confortável Pavilhão Chinês (encontro imediato com Luís Costa Ribas - («então? Não estás em Washington?»)
- vislumbre de João Botelho (ao Príncipe Real)
- nariz na porta de 3 museus fechados (ao fim de semana e feriado - quando julgam que os trabalhadores podem lá ir?)
- uma boa peça de teatro: «Transacções», encenada por João Reis e com Catarina Furtado na protagonista Loren.

Mas o melhor foi o final, como a C. conhecia um dos actores, no final fomos até ao bar falar com ele. E na mesa, Catarina insistiu para que este amigo vosso se sentasse ao seu lado. E pronto, não conto mais...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Eu, eu mesmo

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
Ainda que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
Álvaro de Campos

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Fotógrafo famoso dá boleia a dois maltrapilhos...

Aqui há uns anos, valentes, era eu um jovem estudante teso, fui com um amigo de Coimbra até Lisboa à boleia. Lá passámos o fim-de-semana e no regresso ainda estávamos mais tesos do que à partida.
Resultado: fomos para as portagens (ainda eram em Sacavém) mendigar mais uma boleia para cima.
Passámos horas nisto sem sucesso. Até que uma carrinha tipo Ford Transit parou e lá nos deixou subir. Eu, sempre mais conversador, pensei que teria de fazer as despesas, mas nem precisei: o tipo era do mais extrovertido que eu tinha visto. Começou por perguntar meio estupefacto se nós não o conhecíamos. Perante a negação, foi dizendo que era o fotógrafo oficial da Presidência da República e mais não sei quê. Que estava a remodelar uma casa para Viseu, e de facto a carrinha ia carregada de tarecos, mas que era fotógrafo com obra publicada. E continuou a vangloriar-se que era fotógrafo disto e daquilo e nós, nada, nem uma nem duas. Pura e simplesmente não acreditávamos que um artista da presidência andasse ali em t-shirt com uns tarecos na carrinha. Em Coimbra deixou-nos e entregou-nos um cartão. Nós contínuávamos cépticos. Mas, curiosos (ainda não havia net) fomos perguntar quem seria o homem. Era de facto quem dizia e chama-se António Homem Cardoso. Já agora, obrigado novamente pela boleia...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Du tabac, sivuplé...

Aqui vai outra, porque isto são como as nésperas...

A meio do inter-rail, salvo erro em Antuérpia, o Z.A. farto de ver sempre o mesmo (eu) a destrocar em Inglês quis autonomizar-se e provar que dominava a Língua.
Disse-me: estou farto que sejas sempre tu a falar, agora vou eu e falo eu. Pensou, planeou, repuxou os punhos das mangas, encheu o peito de ar e entrou num bar. Colocou os braços no balcão, dirigiu-se à menina que atendia, e perguntou com o ar mais shakespeareano deste mundo pausando bem as sílabas: «Are you a cigarrette?»
Perante o ar embasbacado da moça que pensou que estava no meio dos «Apanhados», voltou a repetir mais alto, mais devagar e ainda mais convicto: «Are you a cigarrette, or no?» A moça estava atónita, boquiaberta e procurava uma ajuda qualquer.
O Z.A. pensou que era um problema de rapidez e complexidade da expressão e por isso meio agastado soltou lentamente, sílaba a sílaba: «Porra, a-re y-u ou noue a ci-ga-re-tte?». Silêncio. Total.
Aqui o Z.A. desiste, volta-se, olhou para mim, baixou os braços e disse: "a gaja não percebe, é belga...»

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O meu contributo para a crise...

No início de 1998, por razões de índole profissional, acompanhei um evento qualquer da Liga Portuguesa de Futebol na Exponor e o governante indicado para presidir ao evento (lembro-me que muito bem vestido) chegou mais cedo que o major Valentim e lá tivemos todos de ficar ali à porta da sala a fazer conversa... de sala.
Depois de termos falado do tempo e do futebol, fomos para a política e eu num verdadeiro momento de zandinguismo mayêutico disse à guisa de brincadeira:
- «O senhor é que dava um bom primeiro-ministro...». Gargalhada geral.
«Oh, não, não diga isso, estamos muito bem servidos como estamos», foi a resposta.
O membro do Governo era José Sócrates e o resto é história... recente.

Amanhã vou estar novamente com ele. Alguns recados? Porque previsões já não volto a fazer...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Uma «russa» a dar baile ao pató

Para sair desta tonalidade natalenta, senão ainda me ponho a cantar o gingo belos, vou contar uma história do Algarve (e ele há tantas!):
Numas férias, acampámos pela enésima vez em Lagos, Orbitur e à noite lá íamos à discoteca Eléctrico (linda: toda de branco, bares desafogados e várias pistas).
Numa dessas noites, eu e o meu amigo Óscar desencantámos dois biscoitos loiros e lá fomos cantar a nossa canção do bandido cada um para seu canto. O meu biscoito num inglês duvidoso (ou eu percebia mal: era da música ou era do álcool) foi-me dizendo que era russa e tinha viajado escondida num barco e desembarcado sorrateira (isto largamente antes do Gorby e da queda do Muro).
Toda a aventura vivida pela moça fez redobrar o meu interesse: era muito mais interessante ter uma pirata de leste a bordo ainda com sabor a comunismo na pele (uh, como seria exótico) do que uma deslavada estudante liceal nórdica. E eu spassiba para cá, perestroika para lá, glasnost para aqui, tovarich para ali, lá me fui imiscuindo e aproximando. Aquilo prometia...
Às tantas não aguentei, atravessei a pista e fui contar tudo ao Óscar que continuava o seu trabalhinho de formiga sem massacrar (como era seu timbre) junto do outro biscoito.
E contei de uma forma entre o excitado e o muito excitado: «eh, pá, grandioso, elas são russas, espectacular e tal». O Óscar ria. «É exótico», garantia eu. E o Óscar ria cada vez mais.
Na verdade ia tendo um ataque, riu, riu a bandeiras despregadas e depois lá me explicou que elas não eram nada russas e eu - conquistador de meia tigela - tinha mas era levado uma tanga de duas horas e meia da loira e perdido toda a noite.
Eu mesmo assim não acreditei voltei a atravessar a pista e fui confirmar com a minha «conquista». E ela manteve a história. Era uma refugiada, queria asilo, etc, etc. Continuei a ser toureado de fino e só no final da noite é que me compenetrei (quando todos riam à minha custa) que se tratava afinal de duas suecas classe média que tinham voado para Faro num voo charter, e ali estavam num apartamento marado a gozar a sua semanita de férias.
Não eram afinal as duas russas exóticas perseguidas pelo KGB e a pedir asilo por terem dado o salto da cortina da ferro. Lá se foi o filme na minha cabeça. Foi pena...
E foi pena o Óscar estar lá, porque desmente-me já, senão hoje - criativo como estou -dava um final diferente a esta história...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Era uma vez... a minha vez!

Há muitos, muitos anos, no século passado, as férias ou pelos menos parte delas, eram passadas a quatro: a minha namorada e dois amigos igualmente namorados. Como já vinha sendo costume, o meu pai trocou de carro comigo. Um velho R5 por um Laguna, era uma excelente troca! Nesse ano decidimos conhecer Ibiza. É realmente uma ilha fantástica para conhecer no Verão. Durante o Inverno é como os Açores mas sem o conforto da paisagem e das suas gentes para disfarçarem a solidão de tranquilidade. É atroz! Demoramos três dias pra chegar a Valência, onde metemos o carro num Ferry Boat enorme. Juntamente connosco, entraram passageiros a pé, de bicicleta, dezenas de carros e vários camiões e semi-reboques. Quando chegou a nossa vez, mandaram sair os passageiros do carro e fizeram-me seguir em direcção à parede do barco, já dentro daquele grande porão. Aquela fila de carros tinha acabado de ficar completa e por isso fizeram descer uma rampa, por cima do último carro. Tratava-se do acesso a um caminho em camarote, por cima da fila de carros, que tinha acabado de entrar. Um espanhol da tripulação mandou-me esperar e foi entabular conversa com o colega que me tinha mandado seguir até ali. Quando voltou, recolheu-me os espelhos retrovisores e eu perguntei-lhe se estava tudo bem. Respondeu-me que era “un coche un poquito grande” mas tudo bem, podia seguir “arriba” e lá fui eu. Era realmente muito estreito, parecia uma varanda gigante ao longo do grande porão de carga mas lá fui seguindo, devagar, orientado pelo espanhol, sempre com cuidado para não riscar o Laguna nos pilares que compassadamente sobressaíam da parede esquerda. É claro que me perguntei como é que ía sair dali mas o meu espírito ficou mais sossegado quando vi que o fim do caminho era outra rampa, ainda levantada e que claramente só podia ser baixada quando o porão abrisse a saída do fundo.

Quando atracamos em Ibiza apercebi-me que o Ferry tinha exactamente a mesma parte virada para o porto que tinha sido usada para carregar. Bem, eles devem ter pensado nisso, repetiam-me os meus amigos em jeito de sedativo. Mas aparentemente não tinham! Disseram-me que tinha que ir buscar o meu carro ao que eu retorqui mas por onde? Por onde saio?! Tem de vir em marcha-atrás, resposta pronta em castelhano. Pois, o “coche” não é do teu pai, nem sequer é um enorme Laguna. Quem foi o incompetente que me mandou seguir lá pra cima? Tentaram explicar-me qualquer coisa mas eu já não ouvia nada. Estava furioso! Bem, o carro ali não podia ficar e eu tinha os amigos e o resto das férias à espera, por isso… dirigi-me ao Laguna e a minha primeira reacção foi abrir os espelhos mas logo percebi que não havia espaço. Entrei no carro, respirei fundo e pus o motor a trabalhar. Engrenei a marcha-atrás e recuei 20 cm, depois mais 20… Alguns passageiros, que ao sair se apercebiam, iam ficando sem que eu me apercebesse, nas imediações do Porto. Ao cabo de mais de 25 minutos e alguns maus tratos na embraiagem, lá apareceu o principio da rampa. Agora já era um pouco mais largo e a descer, já não precisava da embraiagem mas o cansaço no tornozelo esquerdo tinha feito estragos e doía. Quando finalmente entrei no porto, já tinha esquecido as dores e a raiva, acelerei e fiz um peão de marcha-atrás com o travão de mão. Não podia ter corrido melhor se tivesse sido ensaiado. Os passageiros bateram palmas e eu assustei-me, não contava com aquela audiência. Por fim saí do carro e um dos tripulantes do Feery veio ter comigo, provavelmente para me pedir desculpa e dar alguma explicação mas eu já não estava com espírito para ouvir. Estava feliz por ter conseguido. Sentia que tinha conseguido a maior proeza do mundo! Apertei-lhe a mão e despedi-me. Ele fez questão de me dar um abraço e desejou-me boa viagem. “Vale!”

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Salvo em Epse...

Ontem falei aqui da carga policial contra polícias e de como fiquei embaraçado quando vi as imagens em casa de uns amigos na Holanda e lembrei-me de um episódio que se não dava um filme, dava pelo menos um trailer. Let´s look then:
Eu tinha uma amiga chamada Ellen que morava em Epse, Holanda, e a meio de um inter-rail resolvi ir visitá-la. (Convém recordar que estamos na era do pitecantropus sem telemobilus). O caso começou logo quando me vi grego (cá está!) para chegar a Epse, lugar de que ninguém tinha ouvido falar. A custo lá encontrei alguém que me disse que ficava perto de Daventer e lá fui, a partir de Amesterdão.
De Daventer para Epse fui de autocarro e à boleia, porque entretanto explicaram-me que Epse nem sequer era uma aldeia, tinha apenas três casas.

O carro deixou-me numa estrada e disse-me que agora era só andar. E andei. Quando finalmente cheguei a casa da Ellen (todo o dia a viajar para fazer para aí 60 km) bati literalmente com o nariz na porta. A casa era muito gira, de campo e tal, mas não tinha ninguém. Olhei em redor e não vi vivalma. Sentei-me na degrau soleiro a comer bananas e comi toda a fruta que conseguira comprar com os últimos marcos antes de passar para os florins.
Esperei. E comi pêras. Esperei outra vez.
Depois, a noite começou a cair e o vento a vergastar os salgueiros. E eu a ficar com frio. E desesperado. E arrependido de ter ido.
De repente, literalmente de nenhures, no estradão de terra batida fronteiro à casa, surge uma rapariga (sim, era bela) a passo lento no seu corcel negro. Levantei-me num ápice a pensar que fosse a Ellen (era uma grande 'animal lover') mas depressa vi que não era. E a elegante amazona passou sobranceira, muito devagar. Sorriu e eu retribui. E lá continuou.
O tempo passava e a noite a chegar sem aparecer ninguém e eu no meio de nenhures. Tentei encontrar outra casa, alguém, um carro, uma estrada, mas nada. Depois de muito palmilhar avistei um agricultor no seu tractor. E perguntei-lhe no meu melhor inglês: - olhe, por favor, conhece a Ellen?
- Conheço,claro, respondeu num inglês melhor que o meu, «mas estás com azar porque ela e a mãe estão na cidade e só voltam ao fim-de-semana. E nem todos.».
Balde de água fria. Larguei uns impropérios em português, mas para dentro, claro. A noite chegou e eu, desesperado, não sabia o que fazer.
Voltei à estrada, andei uns metros, mas estava a dezenas de quilómetros da próxima povoação e sucumbi.
Atirei a mochila para a valeta e sentei-me na estrada. Passada uma meia hora aproxima-se um carro e eu levantei-me dum pulo a pensar como fazê-lo parar.
Mas não foi preciso. O pequeno Golf castanho encostou e abrindo a janela a bela amazona que tinha passado por mim, disse-me:
- Estavas à espera da Ellen, não estavas? Fiquei tão boquiaberto que nem falei, assenti apenas. O calor que vinha de dentro do automóvel inebriava-me. E ela era linda...
- É melhor entrares porque a Ellen não vem hoje de certeza e aqui não arranjas sítio para dormir. Podes vir para minha casa.
Fui para casa dela. E foi ao jantar que vendo as imagens na televisão lá lhe expliquei que não era comum em Portugal os polícias arrearem nos outros polícias. Passámos um par de dias fantásticos. Depois no fim-de-semana levou-me a casa da Ellen. Mas já não me apetecia ir para casa da Ellen. Ainda hoje trocámos postais de Natal.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Agustina, a depressão e a confidência...

Este bliok está a ficar interessante com as histórias de vida. Aqui vai outra:

Há uns anos, a instituição onde trabalho patrocinou uma visita do Centro Nacional de Cultura ao Norte. E a senhora do CNC, por sinal socialmente muito simpática e atenta, julgou - enganada - que eu era um figurão importante e num dos jantares da jornada, que teve lugar na Bolsa do Porto, colocou-me ao lado da escritora Agustina Bessa Luís.
Eu fiquei algo ansioso, já que por (de)formação sou muito reverente em relação a estas figuras cimeiras da cultura e da literatura em especial. Mas também sou muito curioso e inquisitivo.
Não tinha justificação a minha apreensão, já que a Autora foi extremamente cordial e a conversa decorreu de uma forma muito natural e interessante, respondendo Agustina directamente a todas as minhas questões.
Perante um misto de espanto e aborrecimento dos outros comensais, cuja conversa era entediante até mais não, tagarelámos abundantemente sobre literatura e a obra de Agustina (sem que eu tenha lido integralmente qualquer livro dela).
E no meio da conversa, eu disse-lhe que tinha lido um livro dela chamada Contos Impopulares.
-«Oh, é dos meus primeiros...», disse-me, ficando algo intrigada por eu conhecer aquela obra.
E depois disse-me: «Sabe, esse foi o livro que me fez escritora, porque eu já tinha abandonado a escrita».
E depois explicou-me entre outras «confissões», que após a sua primeira obra (Mundo Fechado, de 1948) que tinha sido um sucesso retumbante (e ganhou um importante prémio) publicou logo de seguida o seu segundo livro (Os Super-Homens, de 1950).
Estava à espera de igual reconhecimento (do público e da crítica) mas foi olimpicamente criticada e ignorada, tendo ficado profundamente deprimida e abandonado a literatura, tendo mesmo ponderado nunca mais escrever uma linha.
Confessou-me que chorava, prostrada, e só o alento de editores amigos (que mencionou pelo nome mas que já não recordo) e que gradualmente lhe recuperaram a auto-estima, fez com que voltasse à escrita. Foi então que escreveu os «Contos Impopulares».
Depois veio «A Sibila» e o sucesso que todos conhecemos...

domingo, 7 de dezembro de 2008

Pequenas atitudes, grandes sentimentos.


No início da década de 80, juntamente com o amigo Labrosca e outro amigo também ligado à arte das ervas daninhas, empreendemos uma jornada de 15 dias em bicicletas carregadas de tralha por terras nortenhas com destino à Galiza. A isso se chamava cicloturismo como, aliás, se chama hoje mas com equipamentos mais apropriados. No regresso do país de nuestros hermanos, após uma subida interminável de gritar pela mamã, chegamos a Covide – Gerês, onde fomos recebidos efusivamente pelas crianças covidenses e com sorrisos convidativos e de boas vindas dos restantes habitantes. Fomos instalar o nosso acampamento no local que a foto documenta, sempre na companhia da criançada. Quando preparávamos o jantar, fomos visitados pelo pai de um dos rapazes que, ao despedir-se, perguntou: -“Então onde é que vocês se sentam para comer?”. –“No chão” – respondeu um de nós. Com uma expressão perturbada, lá nos deixou com votos de bom apetite. Alguns minutos depois aparece o rapazito, com um colega, carregando um banco comprido, dizendo: -“O meu pai mandou trazer isto para vocês se sentarem”.
Covide ficará sempre na minha memória pela indiscutível beleza paisagística mas, sobretudo, pela beleza humana e sincera que tive o privilégio de presenciar.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Domingo à tarde por cima do M'bridge...

Já contei uma ou duas histórias sobre a minha infância e pré-adolescência em Angola. Vou contar outra.
Em Angola não havia televisão, nem shoppings (oh, que chatice!) nem nada. Daí que o pessoal passasse a vida fora de casa (dentro, por vezes, era um forno) em lancharadas, jantaradas e outras patuscadas. Lembro-me de um gazebo (a palavra em português é coreto?) numa das esplanadas em que se estava e petiscava divinamente, mas depois contarei essa.
O que quero contar agora é outra coisa. Aos domingos a pasmaceira era total. Então, por vezes, à tarde o meu pai levava-me ao aeroporto (Ambrizete tinha duas ruas asfaltadas, mas tinha dois aeroportos - em terra batida, claro) e eu adorava aquele programa cheio de «frisson». Só à vista do cone de vento já ficava arrepiado...
Então, o meu pai alugava uma avioneta e pedia ao piloto para dar umas voltas. Uh, era demais! A pista do aeroporto era curta (daí a construção do novo e segundo aeroporto mas que mal experimentei) e já na descolagem quase me saíam os bofes com as rodas quase a tocarem as copas das árvores gigantescas que bordejam o rio M'bridge.
Depois era o êxtase, com o piloto a fazer voos rasantes (parecia-me, provavelmennte estava a mil metros de altitude) e a pôr em debandada toda a bicharada que se possa imaginar - pacaças (bois selvagens), palancas, antílopes, passarada de todo o género, raça, feitio e cores. Até hipopótamos imóveis no rio se viam. Então a passarada e esvoaçar louca com o ruído da avioneta era qualquer coisa de glorioso...
Bom, se já viram o «África Minha» podem ter uma ideia muito aproximada.
Depois das cabriolas todas enquanto comia umas goiabas refastelado ao lado do piloto e já meio surdo do teco-teco, era o regresso.
Mas lembro-me sempre que nesses domingos à noite estava tão excitado que o sono nunca vinha e eu lá revivia segundo a segundo a aventura como um mini-batedor nos céus de África.
Ainda hoje, por vezes, ao domingo, o sono custa a chegar...