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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Foi um momento



Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve !...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
'Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço ?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?


Katie Melua - Piece by Piece
Enviado por danieldp. - Ver vídeos de animais engraçados

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!

Álvaro de Campos

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Caçador caçado


Ao passarmos em Ponte de Lima, há dias, deparámo-nos com um fotógrafo à "La Minute". Lá estava ele, junto a um chafariz, com o seu caixote apoiado num velho tripé e com o cavalinho-de-pau para sentar as crianças e fotografá-las não sem antes dizer: "Olhó passarinho!". É claro que entabulámos conversa com o senhor, um velho resistente que por sinal era bom de conversa. Mostrou-nos com grande orgulho o seu caixote equipado com lentes Zeiss e explicou os procedimentos técnicos necessários à produção das fotografias. Estes magníficos caixotes não só fotografam como são também um pequeno laboratório ambulante onde se revelam e ampliam as fotografias. Fenomenal!
Aproveitou ainda a oportunidade para nos contar uma deliciosa história que se tinha passado com ele momentos antes do nosso encontro: " Chegou-me aqui uma senhora com um menino preto e pediu-me para lhe tirar uma fotografia. Depois de lha entregar a senhora começou a reclamar que a sua cara estava muito escura, que a da menina que eu tinha exposta tinha ficado melhor... Eu, que nem sou racista, respondi-lhe que o menino era mais moreno, não podia ficar igual... mas a senhora insistia, insistia, e às tantas rasguei a fotografia e devolvi-lhe o dinheiro! Isto há cada uma!..."

Evidentemente não poderíamos perder a oportunidade de assinalar este momento com uma ... fotografia! E lá fomos nós sentar-nos no chafariz e posar para o artista!...

domingo, 19 de julho de 2009

Fico sempre bem disposto quando...

...ouço ao longe uma filarmónica que se aproxima.
Toquem bem ou mal - se possível bem - é sempre uma alegria.
Lembra-me sempre o meu avô materno, que fazia parte da banda "Alba". O meu avô paterno também tocou, mas já não foi no meu tempo. Contudo guardo religiosamente uma foto velhinha, já sépia, onde ele está com a banda (com contra-baixo e tudo!).

E os corêtos (escreve-se assim?) no meio das praças...

Em muitos lugares, estas bandas eram pequenos oásis no deserto musical e sociocultural.
Para muito boa gente, era o único meio de aprenderem música, mesmo que por vezes algo rudimentar.
Para além disso, valia pela alegria, pelo convívio.

Salvo erro, foi com o Óscar, ou com o primo dele que, numas férias em Caminha, ouvimos uma boa versão de um excerto da "1812". Há (Ah) que tempos!


Seguem-se dois youtubinhos fraquitos mas alegres:






quarta-feira, 4 de março de 2009

Momentos inesquecíveis


Fui buscar a imagem aqui



Há momentos assim. Perfeitos. Este que vou relatar passou-se há muitos anos em Cerveira (ainda no último encontro o Al Prazolam e eu comentámos o assunto!..).

Nesse ano as férias estavam a ser decepcionantes. Tínhamos tido algumas contrariedades e os dias passavam-se dentro de rotinas mais ou menos conhecidas. Nada de excitante se vislumbrava no horizonte. Foi então que o Al e eu decidimos mudar de ares. Mas ir para onde? De mapa na mão decidimos zarpar para Caminha, um destino na altura desconhecido mas com um nome sugestivo...
As expectativas eram baixas. Não conhecíamos ninguém e a moral não andava nos seus melhores dias. A nossa decisão veio contudo a revelar-se totalmente acertada. Conhecemos, então, aquilo que é verdadeiramente uma característica daquele extremo de Portugal: a abertura das pessoas, a simpatia e a hospitalidade. Fizemos imensas amizades e divertimo-nos à grande (até ping-pong jogámos com o Tozé Brito e a irmã no Clube de Moledo!).
O culminar destes dias belíssimos passou-se na casa do actual Presidente da Câmara de Cerveira, José Manuel Carpinteira. Um fim de tarde magnífico na varanda, rodeados de amigos e de boa disposição. Ao fundo, o Pôr-do-Sol sobre o Rio Minho. No ar, morno, o som de Ponty e da sua banda interpretando o tema Mirage. Pois é, felizmente há momentos assim!..

Nota: ao procurar uma imagem para ilustrar o post encontrei esta que se assemelha imenso à recordação da vista daquele lugar. Fantástico!




sábado, 28 de fevereiro de 2009

Álvaro de Campos

Eu adoro todas as coisas

E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.

Tenho pela vida um interesse ávido

Que busca compreendê-la sentindo-a muito.

Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,

Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas.

Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio

E a minha ambição era trazer o universo ao colo

Como uma criança a quem a ama beija.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Histórias de Natal: uma lição de anatomia


Ceia de Natal. A sala estava cheia de gente. Nós, os mais novos, ficámos instalados numa pequena mesa de apoio já que não havia espaço para todos. A conversa estava muito animada: falávamos dos presentes do dia anterior (suponho eu…), das últimas aventuras, enfim, de assuntos de adolescentes…
O peru, a batata assada e o esparregado pululavam pelos pratos. O meu primo, homónimo, sentado entre mim e o Tulius, tal cirurgião experiente, explorava as entranhas do pedaço de animal que lhe tinha calhado em sortes. A certa altura, com um ar triunfal, apresentou-nos espetada no garfo uma pequena bola tipo rugby e exclamou: “Olha um ovinho! Hum que sorte!”. Comeu-o logo a seguir de uma só vez. Pouco depois apareceu outro: “Olha outro!”. Naquela altura o pessoal da mesa de apoio começou a ficar invejoso. Entretanto, a excitação pelas descobertas despertou a atenção dos mais velhos: “Então o que é que se passa?” perguntou o meu pai. “Estou a comer ovinhos de peru”, respondeu o meu primo. “Ovinhos de peru? Quais ovos de peru, isso são os testículos!”. Ante tal explicação, a expressão do meu primo passou rapidamente de triunfal a enjoada e envergonhada. A risota foi geral. O meu primo ainda argumentou, com ar desesperado, que tal não era possível, que aquelas bolinhas estavam dentro do animal, não estavam numa bolsa coberta de pêlos, …ou penas!!!

Um peru com testículos!.. Na altura não me passava pela cabeça que as aves partilhassem connosco tais protuberâncias. O assunto conduziu a minha memória para aquela anedota pequenina e deliciosa, o passarinho uiui: “Era um passarinho muito pequenino que tinha uns tomates muito grandes. Então, sempre que aterrava, fazia UI, FFFF, UI, UI!”
É claro que o inventor da anedota não usufruiu desta lição de anatomia…


A imagem é daqui
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Osvaldo: a história de um guarda-chuva


Os guarda-chuvas são como as esferográficas: passamos a vida a usá-los, a perdê-los e a trocá-los por outros. A nossa relação com estes objectos ilustra bem a época em que vivemos…

Dantes era diferente. As pessoas tinham os seus objectos como se fizessem um pouco parte delas próprias. Havia uma relação afectiva com a caneta Parker, com o automóvel que se tratava como se fosse quase um membro da família…
Tudo era mais duradouro e mais estimado pelos donos. Hoje o carro, a máquina fotográfica, o computador e a própria casa mudam-se ao cabo de algum tempo quase sem nenhum sentimento de nostalgia. Isto para não falar dos objectos mais banais! Esses, passam pelas nossas mãos e trocam-se a toda a hora.

Tudo isto vem a propósito do reencontro com a Casa Celestino, a antiga loja de guarda-chuvas e material de campismo (coisas mesmo parecidas!..) da Rua de Cedofeita no Porto. A vista daquela montra remeteu-me para o passado, para o meu guarda-chuva de estimação.

Certo dia, há vinte e tal anos atrás, entrei na loja para comprar um guarda-chuva. Fui atendido pelo velho Celestino que, com grande amabilidade e cortesia, me mostrou vários produtos explicando-me todos os detalhes de cada um como se se tratasse de material de alta tecnologia. Mas não, nenhum me satisfazia inteiramente. Eu queria um guarda-chuva que me abrigasse de verdade, que resistisse a qualquer intempérie. Cheio de paciência ante a minha insatisfação o senhor foi então buscar um enorme guarda-chuva de pastor, de doze varetas, com a vara central em madeira, do mesmo diâmetro da pega, e com tecido em algodão. Mal lhe peguei fiquei logo convencido. Aquele era o meu guarda-chuva.

“Eu vendo-lhe o guarda-chuva, mas não lhe garanto que o Presidente da Câmara o autorize a andar com ele na rua!..” Os sorrisos generalizaram-se entre todos os que ocupavam a loja! E lá saí satisfeito de Osvaldo na mão, que isto de comprar guarda-chuvas é só mesmo quando precisamos deles!

Muitas foram as peripécias (e o exercício físico, que ele era pesado!..) passadas com aquele mega guarda-chuva. A mais insólita aconteceu quando passeava em Santa Catarina. Ia eu distraído, num dia de chuva, quando duas raparigas, sem me dizerem nada, saíram de um abrigo e colocaram-se debaixo do Osvaldo, uma de cada lado. Sorriram para mim mas não me pediram boleia. De qualquer forma não valia a pena, era facto consumado! E lá fomos os três na alegre galhofeira, rua fora, até ao Majestic onde fui recompensado com um café e uma torrada, e uma tarde muito bem passada!..

Perdi-o, dois anos e picos depois, numa viagem de comboio. Saí na estação e ele seguiu o seu destino. Espero que tenha sido encontrado por alguém que o tivesse estimado como eu.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O Duque da Ribeira


No tempo da Pré-História, em que havia apenas meia-dúzia de bares no Porto, o Duque da Ribeira (na época sem Karaoke!..) foi palco de muitas histórias inesquecíveis. Na altura eu fazia parte de um grupo de música popular portuguesa. Foi uma época perfeitamente louca!

Botas à lavrador, colete e camisa branca (ou aos quadrados!), instrumentos sempre a postos, afirmávamos a nossa identidade espalhando música e alegria por tudo quanto era canto!
Tivemos noites de glória no Duque. Havia pessoas que paravam por lá sempre que íamos tocar. Normalmente essas noites terminavam em casa de amigos, ou desconhecidos, entre copos e mais música!..

Numa dessas noites estava o pessoal todo animado quando o dono do Duque, numa grande excitação, nos veio avisar que provavelmente iria aparecer por lá o Carlos do Carmo. CAAARLOOS DO CARMOOO??? “Glup, duplo glup”!...

De facto, assim aconteceu. Aproveitando uma digressão ao norte, o famoso artista decidiu conhecer a noite portuense.
Não sei se o senhor é ou não boa pessoa. Não o cheguei a conhecer pessoalmente. Mas deve ser bastante simpático, já que bateu palmas acompanhando alguns dos nossos temas mais alegres e, por várias vezes, fez-que-sim com a cabeça enquanto se dirigia à comitiva que o acompanhava. Só pode ser por simpatia! Nós éramos uns meros amadores completamente “à nora” ante a sua presença...

Saiu quando ainda não tínhamos acabado a nossa actuação. “Ele ficou encantado!” – disse-nos depois o dono do bar enquanto metíamos as “violas nos saco".


Adormeci nessa manhã embalado por estas palavras…

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Carnaval mais insólito


Caminha tem uma magia muito especial. Naquele pequeno extremo do nosso país vivi histórias inesquecíveis! Hoje vou contar uma.
Dois anos ou três depois de casado eu e a minha companheira, ainda sem filhos, decidimos aproveitar as férias de Carnaval para dar um passeio pelo Minho. Por mera coincidência, porque o Entrudo não nos dizia nada de especial, ficámos alojados na Estalagem da Boega (Vila Nova de Cerveira) precisamente na noite dos sambas e das serpentinas.

À hora do jantar começámos a conhecer a personagem, totalmente excêntrica e singular, que foi a grande protagonista da noite.

Um tal Sr. Amorim, dono da estalagem, pegou numa sineta e, fazendo-a soar, avisou que a refeição iria ser servida. A forma como organizou o jantar e se dirigiu às pessoas, autoritária e pouco afável, causou-me algum incómodo e surpresa. Parecia que nós éramos "paus mandados" às suas ordens. Que fazia o favor de nos receber.

Durante o jantar, foram inúmeras as peripécias que se foram sucedendo: "Não gosta? Então come menos porque não há mais nada para servir"; "Quem é que sabe cantar? E tocar viola?" E sem que desse tempo às pessoas para se manifestarem lá apontou dois ou três desgraçados para animarem a noite. Eu, porque a minha companheira começava a alinhar no jogo, fui um dos voluntários à força.

Passado o impacto inicial o pessoal começou a baixar as defesas e a alinhar na brincadeira. Depois do jantar lá fomos todos à ordem do Sr. Amorim para o bar da Estalagem. "Podem beber o que quiserem por conta da casa, hoje é Carnaval!". As pessoas entreolharam-se boquiabertas e começaram a conviver animadamente.

A certa altura, a dita personagem vira-se para mim, para a minha companheira e para mais 5 ou 6 pessoas e diz: "Tu, tu e tu venham comigo. " Ninguém se questionou. E lá fomos em dois ou três carros rumo a "sabe-se lá onde"!..

Pouco tempo depois parámos numa bruta moradia, propriedade de um amigo do Sr. Amorim. Entrámos para a cave onde existia um piano de cauda, várias violas e uma enorme e acolhedora lareira.

Virando-se para nós iniciou as apresentações: "Este casal é de Lisboa. Ele é psiquiatra e ela artista plástica. Aquele senhor chama-se Costa e é Industrial"... e as identidades fictícias que ele nos arranjou, fruto de uma imaginação delirante, continuaram a fazer as delícias de todos!

A noite foi inesquecível! Muita música, vinhos de Bordéus, presunto Pata-negra, queijos dos mais variados gostos, feitios e proveniências.

Era já manhã quando regressámos à estalagem. Enquanto lavava a cara em frente ao espelho da casa de banho dei por mim a pensar se tudo não tinha passado de um sonho. É que estas coisas só acontecem nos filmes!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Haja o que houver

Esta história passou-se há uns anos atrás. Foi assim:

Estávamos, na altura, a ingressar no mundo do trabalho. Um amigo meu comprou, então, uma Diane em 3ªmão. Como consequência, as boleias começaram a ser vistas na perspectiva de quem vai no carro e não o contrário! Foi o que aconteceu naquele Verão. À saída de Lagos passámos por duas raparigas, uma loura e uma morena, que empunhavam um papel dizendo: Lisboa. Os argumentos eram muito fortes: olhámos um para o outro e parámos.

“Vão para Lisboa? Então bora lá!” E partimos em viagem. Devo acrescentar que a morena tinha uma estatura imponente e era bem larguinha de ancas. O Diane fez esta viagem meio desequilibrado, inclinado para o seu lado. Na altura nós éramos pesos plumas e a loura não andava longe…
Apesar de um pouco anafada, a morena tinha uns belos olhos escuros num rosto que poderia definir como o arquétipo da mulher portuguesa (se é que isso existe!..).

Tinham passado uma boa temporada em Lagos a trabalhar num bar, os seus sorrisos cúmplices não as deixavam mentir… e a conversa foi prosseguindo fluída e divertida. E longa! Que o Diane fazia render bem o peixe!

Férias, projectos de vida, viagens, e os quilómetros iam avançando...
Música foi também tema de conversa, já que a morena estava entusiasmada com um convite para integrar um novo projecto musical e o assunto também nos dizia respeito.
Quando nos separámos houve as promessas habituais, nunca cumpridas, de um novo encontro.

Meses depois, qual não foi o meu espanto, revi aquela cara na capa de tudo quanto era órgão de comunicação social. A morena chamava-se Teresa Salgueiro e cantava nos Madredeus.

Não vou mais esquecer, por certo, aquelas horas passadas no velho Diane. Haja o que houver!!!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Madame Reneille


Para contar esta história tenho que recuar duas décadas no tempo. Na época, as férias valiam por um ano inteiro. Sempre que havia dinheiro suficiente no bolso lá estávamos nós a viajar por essa Europa fora. Mas nem sempre era assim. Nas férias de 1986 o meu pai, porque as crises não são só de agora, deu-me dez contos para a mão (é preciso dizer que o bilhete de inter-rail custava na altura vinte e tal contos).

Com tal orçamento, eu e um amigo pusemos os pés na estrada à boleia. Percorremos, durante um mês, Portugal de lés-a-lés. Vindos do Sul, mais propriamente de Sagres, passámos uns dias em Lisboa. Numa bela tarde de Agosto decidimos gastar uma fatia do nosso pecúlio na esplanada da Pastelaria Suiça frente ao Rossio (um daqueles lugares de visita obrigatória!).

Enquanto saboreávamos vagarosamente um delicioso eclair, para fazer "render o peixe", fomos assediados por um simpática velhinha que se fez de convidada para a nossa mesa. A senhora, grande conversadora, tinha um ligeiro sotaque. Era Belga de nascimento.

Durante toda essa tarde contou fabulosas peripécias da sua vida. Dizia que tinha sido casada com o Visconde do Estoril. Que não tinha filhos e que toda a sua família tinha já partido. Que tinha vivdo faustosamente convivendo com Reis, Rainhas e outras personagens de sangue-azul (e de muito dinheiro!). Embora não acreditássemos em dois terços das suas narrações, eu e o meu amigo ouvíamo-la com o mesmo interesse de uma criança quando alguém lê uma fábula. Enquanto contava as suas histórias, ia pagando rodadas de cerveja umas atrás das outras. A certa altura estava já a ficar preocupado com a sua saúde. Tinha receio que estas tivessem como intenção manter-nos ali à sua beira. Ela era nitidamente uma pessoa só à procura de companhia.

Era já quase noite quando a Madame Reneille deu por finda a conversa. Eu e o meu amigo acompanhámo-la, então, à sua residência. Depois de caminharmos uns bons vinte minutos, com as pernas a tentarem desobedecer de tanta cerveja, chegámos a um faustoso hotel de 5 estrelas.
Nem queríamos acreditar quando ela nos disse que era ali a sua "casa". Afinal era tudo verdade! O porteiro, impecavelmente vestido de farda, fez-lhe então uma vénia daquelas que quase levam a cabeça de encontro aos joelhos. Dois beijinhos, promessas de um novo encontro. E lá deixámos para trás a fantástica Madame Reneille!

Nunca mais voltei a ver a Viscondessa do Estoril. Fico-lhe eternamente agradecido pelas suas lições de vida. Por uma tarde inesquecível. Creio que ela também gostou. Várias vezes interrompeu as suas memórias para nos acarinhar e dizer que se tivesse tido filhos gostaria que eles tivessem sido parecidos connosco.