Julgo que nada adianta, mas vou protestar. Poderia desenhar um manguito no boletim, mas sou mau a EVT e por isso vou votar em branco.
Por duas razões já votaria:
Ambiciono um país em líderes.
A presidência é uma instituição arcaica e redundante, desnecessária e que só não acaba porque ninguém tem coragem de dizer que o presidente vai nu… e é tão inútil quanto cara, excepto naturalmente para alimentar e justificar a própria existência.
Por uma terceira razão, porque à excepção de Cavaco, todos os outros candidatos são erros de casting tão crassos e dolorosos que até dão pena.
Mas também não vou votar Cavaco pelo seguinte:
Foi ministro das Finanças quando eu tinha 17 anos. Vai sair da presidência quando eu tiver 53. Ele é a política do balofo, do faz que faz mas não faz. Do sim, não e nim. É sem dúvida a epítome de uma geração perdida.
Mais: é o símbolo de uma determinada forma de ser e de estar, de um estilo, de uma forma de fazer e deixar fazer as coisas que deu no país que 30 anos depois hoje somos. E o país tem exactamente os valores errados. A injustiça, o carreirismo, a corrupção, o triunfo do demérito, etc.
Quando primeiro-ministro esbanjou e deixou esbanjar dinheiro. Desperdiçou e deixou desperdiçar a maior oportunidade de desenvolvimento do País no século XX. E que nunca mais voltará.
Escolheu e determinou um modelo de económico que deixou obra de betão mas não formou pessoas, a nossa ética, a nossa cultura, uma nova forma de fazer. Falhou culturalmente porque errou nas opções. Optou pelo alcatrão quando devia ter optado pelos valores. Não infra-estruturou as cabeças. Não escolheu as sendas correctas. Foi o tempo dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas.
Preparou-se para politicamente ganhar sempre o poder e sempre que o via escapar, fugia. Foi egoísta e carreirista.
Alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme
que já conhecemos.
O Cavaco presidente não tem pensamento político, tem apenas um reportório de frases feitas consensuais porque ocas e vazias. Agarra-se ao cumprimento da Constituição para justificar a sua inoperância. Finge que detesta a política como se a política não fosse o seu ofício de sempre. Finge uma superioridade intelectual quando só vive para a sua agenda (neste caso a reeleição).
Mais uma vez a sua presidência foi uma oportunidade perdida. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que preocupava tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que pariram um rato e uma comunicação surrealista; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. É bota de elástico e refém de uma mentalidade ultrapassada. Tem falta de coragem política porque só está interessado na carreira pessoal. Não é estadista.
Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, só lugares comuns e mesmo assim contrários a tudo o que praticou quando foi primeiro-ministro.
Por último, apresenta-se para fazer mais cinco anos do mesmo. Reparem: não há uma ideia nova, uma cara nova, uma frase nova. Não tem chama, não tem imaginação, não tem rasto e está rodeado dos grupelhos de sempre. Vão ser mais cinco anos do mesmo.
Quando começou na política (e logo com a pasta das Finanças) eu tinha 17 anos e não podia votar. Quando sair da presidência eu terei 53 e já não me apetece votar. Este homem esfíngico, pouco natural, calculista, que foi o político profissional com mais tempo no activo para a nossa geração, continua a fingir que não é o principal responsável pelo estado em que estamos e continua a apresentar-se como alguém superior que paira por cima da política e dos restantes portugueses, como homem providencial. É preciso lata. Por isso não posso votar nele.
Eu ambiciono um país sem líderes. Porque os líderes são sempre isto…