domingo, 9 de janeiro de 2011

Ah pois é!

Aqui há umas semanas os meus pais fizeram anos de casados, 50 mais exactamente. Como a ocasião pedia comemoração conforme, eu, que sou grande organizador de ebentos - o essencial é esta convicção - convidei-lhes cerca de 50 amigos para uma almoçarada.
Antes, como eles são do antigamente, calculei que também quisessem uma missinha e também organizei a liturgia.
Ora a meio a cerimónia o padre além das linhas «obrigatórias» quis introduzir umas perguntinhas mais informais, em jeito de conversa amigável. E começou pela minha mãe:
- Muito bem, cinquenta anos. E então a senhora diga lá: se voltasse atrás voltava a casar-se para poder viver assim 50 anos de felicidade?
A minha mãe que não estava à espera de perguntas directas, para além das ladainhas próprias da ocasião, embatucou durante uns segundos, pensou, e como só ela saiu-se com uma resposta tão sincera quanto inesperada:
- ... Talvez!
A conversinha informal ficou por ali e o padre passou rapidamente para os padre-nossos e ámens finais.

Maravilhosa diferença.

sábado, 8 de janeiro de 2011

É a vida ...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

(Álvaro de Campos)



Eu sei

Eu sei que não sou nada
e que talvez nunca tenha tudo.
Aparte isso, eu tenho em mim
todos os sonhos do mundo.


Maiko

Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta floresta, em este som me perco
E sozinho medito.

Assim no mundo, acima do que sinto,
Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E nada tem sentido — nem a alma
Com que penso sozinho.

(Ricardo Reis)


2011

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
(Ricardo Reis)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

... continuo no Brasil




Elis & Tom - Para conseguirmos ouvir um álbum durante vinte anos com a mesma frescura com que o ouvimos pela primeira vez é porque tem de ser mesmo especial. Difícil encontrar um álbum de Bossa com a qualidade que este nos dá. Saravá...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Californian Kiss

Uma fotografia vale por si? Quando observamos uma exposição, ou visitamos um museu, temos a sensação de um preenchimento total sempre que nos deparamos com uma obra maior, sobretudo se se tratar de um quadro de um pintor famoso que já conhecíamos previamente a partir de reproduções. Esta sensação de que valeu a pena é independente da nossa apreciação sobre tudo o resto que está exposto. - Fui lá e vi o... - dizemos nós orgulhosamente aos amigos.
Todavia, a posição é diferente quando se trata de uma exposição de fotografia: neste caso as pessoas têm a tendência para ver e avaliar o conjunto.

A minha opinião é contudo diferente. Sim, o conjunto é importante, mas uma boa fotografia tem a qualidade e a força para me deslumbrar tal qual um quadro e se impôr independentemente das outras que a acompanham.

Eis um bom exemplo:

Californian Kiss , Elliot Erwitt (1955)

Sempre que me deparo com esta imagem, que tão bem conheço, não consigo evitar de parar um pouco para a contemplar: ela induz uma sensação de felicidade, plenitude e alegria de viver contagiantes. A elegância e o glamour em estado puro.

Aqui fica uma sugestão de música (sei que óbvia...) para acompanhar a fotografia. Desfrutem!



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Morreu Billy Taylor



Aos poucos vamos ficando mais pobres e privados de mais uma estrela do jazz mundial.
Aos 89 anos Dr. Taylor ( gostava que assim o tratassem devido a um doutoramento em Educação Musical ... ora toma lá!) faleceu em Nova York, vítima de insuficiência cardíaca. O tema que apresento é a versão original de um dos suas temas mais famosos - "I wish I knew how it would feel to be free". Este tema, regravado com sucesso pela Nina Simone em 1967 fez furor durante as lutas pelos direitos civis entre 1950 e 1970 nos EUA.

Em seguida passo a versão, não da Nina Simone mas sim dos Lighthouse Family para variar um pouco do ambiente do jazz. Espero que gostem.


E para terminar ... uma versão do "Take the A Train" de Duke Ellington. Não deixem de ouvir a exposição do tema tocada de uma forma bastante original, como os vários chorus de improvisação com uma entrada gradual do contrabaixo e da bateria)






Um dia seremos livres

Quem precisa de um(a) encantador(a) de cavalos?


Numa destas pachorrentas tardes de Férias de Natal tive a oportunidade de ver na televisão o filme "O Encantador de Cavalos", protagonizado pelo sempre charmoso Robert Redford. A história girou em torno da recuperação de um cavalo e de uma menina que foram vítimas de um acidente de viação, sendo que o cavalo ficou traumatizado e incapaz de se deixar montar, e a sua dona viu a sua perna ser amputada perdendo o interesse pela vida. O autor destes "milagres" foi um experiente cowboy, daqueles carregam em si a calma das pradarias e têm a capacidade de olhar na alma (do cavalo?) dos que o rodeiam.

É claro que o envolvimento do lugar (belíssimo!) e o glamour do dito cowboy não deixaram indiferentes a mãe da menina, e o romance aconteceu.


A história terminou com a sempre emocionante despedida dos apaixonados, motivada pelo facto da dita mãe não querer abdicar da sua vida anterior junto da filha e do marido.


Matutei longamente neste tema. Acho que representa, na verdade, uma metáfora dos nossos dias. Aturdidas por uma vida rotineira, encerradas num autismo cinzento e progressivo, as pessoas em vez de procurarem respostas dentro de si próprias, vêem crescer o desejo que alguém saia da bruma e as venha salvar "numa manhã de nevoeiro". Como se a solução para as suas vidas estivesse num qualquer encantador de cavalos...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ano Novo, música nova...

Aqui vai uma sugestão do Óscar Júnior para o monami6f. Será que foi inspirado pela mestria do pai? ;-)

sábado, 1 de janeiro de 2011

É urgente o amor

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

(Eugénio de Andrade)

Heróis do mar

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

(Fernando Pessoa)