domingo, 5 de outubro de 2008

Antes de dormir, deixo estes pensamentos escritos pelo Fernando Pessoa, muito apropriados para um fim de Domingo Outonal:

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Boa semana de trabalho para todos os amigos MONAMIS6F

Sarabanda para um final de tarde de domingo...

Desculpa, parabéns e um poema (tem paciência, Tullius)

Eu sei, Tullius, uma mensagem de cada vez, mas não dá. Tem paciência:

A DESCULPA vai para o Oscar porque esqueci-me do lançamento do livro e isso é imperdoável. E como penitência vou comprar dois exemplares e ler os dois seguidos.
E mais: vou promovê-lo, anunciá-lo e comprar mais dois em nome de amigos...

Os parabéns vão para o Deibaidei - verdadeiro rabeta no que toca a contribuições para o blogue - mas mestre se o flautismo é dele como creio na música que o Oscar apresentou. É de grande classe.

E agora os poemas:
José Gomes Ferreira
(Porto, 1900-1985)
«Viver sempre também cansa!»

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

Seis às sete: Let there be love

Aí está mais um fabuloso grupo na praça! Uma interpretação do tema escrito por Ian Grant/Lionel Grant onde se nota o bom gosto do arranjo e sobressai o inconfundível som da flauta de um músico de talento!
Parabéns Deibaidei!

 Seis às sete - Let there be love
Caros Monamis6f, porque hoje é Domingo, um bonito Domingo, aqui vai um pouco de Fernando Pessoa, com uma sensação que me assola aos Domingos, face ao muito que temos para ler, escrever e pensar:
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Eric Satie: Gymnopédie Nº1 (Liona Boyd)

Outra música acima de qualquer moda ou tendência. Outro tema de uma grande simplicidade.
A versão publicada, a minha preferida, é uma adaptação (feliz) para guitarra realizada pela própria Liona Boyd. Ouçam-se os harmónicos que a guitarrista introduz na interpretação!..
Somente o vídeo está aquém da qualidade da música. É pena, mas ainda assim merece ser ouvido com atenção.


Mais informações sobre:
Eric Satie
Liona Boyd

sábado, 4 de outubro de 2008

Toma lá um pescador de pérolas

Pois é, ontem não estive cá e ninguém escreveu nada. Palhaços!...
Nem o Oscar.
Esta vai dedicada ao Labrosca e os seus poemas de FP (Função Pública)... Atenção, também vale uma versão do Kraus, Gedda, Bjorling ou Gigli...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebe-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Meu coração esteve sempre
Sozinho. Morri já...
Para que é preciso um nome ?
Fui eu a minha sepultura.
Antes de dormir, um pouco de Fernando Pessoa - ouço Adagio for Organ and Strings (Albinoni), Maria Teresa Garatti (orgão) em vinil, claro está:

Flor que não dura

Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.

Beethoven: Moonlight Sonata

Consta que Beethoven escreveu esta sonata para uma cega que com ele habitava numa pensão. Numa altura em que o compositor estava já praticamente surdo, percebendo o drama que as limitações físicas podem provocar no ser humano, descreveu o luar através da música para que a sua amiga o pudesse melhor compreender e apreciar. Uma das melhores criações da humanidade. Simples e genial!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Amanhã

Gostava de partilhar um sentimento profundo com o pessoal.
Mas como estou cheio de sono, vou bazar para a cama.
Sonhos agradáveis para todos.
Amanhã é novo dia, e será com certeza melhor que o de hoje.
Mesmo com Sócrates, com Wall Street, com avaliações de desempenho, com juros em ascensão, com desemprego em crescendo, com o petróleo a oscilar como o humor de um doente bipolar, com Fernando Pessoa e João Sebastião insubstituídos e sem esperança de o virem a ser, com o euromilhões que teima em não pintar, com a vida sempre a correr e que não nos permite chegar ao fim do dia com as tarefas que programamos de manhã concluídas e muitas nem sequer iniciadas e novamente adiadas, apesar de todas as contrariedades mesquinhas e de todo o tipo, apesar de tudo, amanhã será um dia melhor.

Samuel Barber: Agnus Dei (Adagio for strings)

Dentro do registo do Vital, proponho mais uma composição de uma beleza intemporal. Agnus Dei, interpretado por The Choir of Trinity College,Cambridge, UK.Dirigido por Richard Marlow.

Ohne Wörte...

Re(cortes) - I


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